Quando a traição é descoberta numa relação a 2, de duas uma: ou o parceiro traído não perdoa e a relação se rompe, ou há uma injeção de libido e a relação se fortalece.
Aprendi isso com meus pacientes, traídos e traidores, por que eu mesmo pertenço à primeira categoria, não tenho a divina capacidade de perdoar. Mas já vi muitas vezes relações mornas recobrarem o tesão após uma traição. É como se a traição fizesse o homem e mulher se sentirem desejados novamente. Ver aquele que traiu como objeto de desejo alheio por mais que doa, restabelece o tesão. Isso acontece e é difícil de admitir, até mesmo para si, mas já ouvi inúmeros depoimentos de que o sexo entre o casal melhora.
Ninguém explorou melhor este tema do que Nelson Rodrigues. Tem um conto em especial chamado Casal de 3 que é maravilhoso. Nele o casal vive há anos um casamento morno, até que um dia, o marido leva um amigo para almoçar. O amigo vira amante da mulher e o casamento esquenta novamente. O amante vira aquele que mantém o casamento aquecido. O marido é o típico corno manso, faz vista grossa, até por que está se beneficiando do chifre. “A vida Como ela é”.
Acredito que quem ama poupa o outro e quando trai, faz bem feito. Não expõe o parceiro ao papel de corno, até porque a traição,acredito eu, é uma questão de quem trai e não de quem é traído. Pode até acontecer de ser um sintoma da relação, mas não acredito que a traição só ocorra em relacionamentos falidos. E se a necessidade parte de quem trai, então que este arque com as conseqüências, incluindo a culpa. Mas há sempre aqueles que não conseguem administrar a culpa e vão buscar absolvição no ser traído. Aí é sacanagem né? Investigue internamente, descubra o que está procurando, vá fazer terapia, mas poupe seu parceiro desse sofrimento. Até por que a imaginação é mais cruel do que a realidade. Fará o traído imaginar cenas do ser amado se enroscando ao corpo alheio ou lançando aquele “olhar ternura” tão conhecido entre os 2.
Eu gosto muito daquele ditado que diz: “o que os olhos não vêem o coração não sente” Quando ainda há amor, mesmo que pouco, mesmo que fraternal, o outro deve ser poupado. Se foi capaz de trair, que faça entre 4 paredes, pois pior do que ser corno é ser corno público. Não expor seu companheiro é o mínimo de respeito que se pode ter.
Não condeno, nem julgo, mas acho injusto esse acordo de liberdade pra mim, prisão pra você. Se a relação suportar a “entrega partilhada”, ou se os envolvidos não curtem a relação monogâmica, há um acordo entre as partes e beijar outras bocas, então, não consta como traição. Mas, se ao contrário, há um acordo de segurar a onda, e só dividir fluidos corporais entre os dois, aí o buraco é mais em baixo.
Só há traição quando há amor, caso contrário, trair o que?
Há aqueles que amam e traem, os que não sabem se ainda amam e se colocam à prova para descobrir, há ainda os que traem por medo de amar demais e os que morrem de medo do abandono ou da solidão e traem para ter sempre uma carta na manga. Caso seu amor titular lhe dê um pé na bunda, já tem outro no banco reserva. Há os que precisam testar seu poder de conquista e fazem traições corriqueiras, e há o tipo mais doloroso de traição, quando seu parceiro/a se apaixona por outra pessoa. Essa é uma traição que dilacera.
Há uma relação triangular que se estabelece com a traição. Não dá pra esquecer que praticamente aprendemos a amar triangulando com pai e mãe. Este é o nosso triangulo afetivo primordial. Pode ser que a traição reedite essa situação, colocando o sujeito no lugar do preterido, do culpado ou do disputado. Bom, mas isso também pode ser maluquice da cabeça de uma terapeuta... Mas essa já é uma outra história.....