Chifre é que nem consórcio: mais dia menos dia vc será contemplado. Dessa máxima popular surgiu a idéia de prestar um serviço de utilidade pública e tentar apaziguar a quase sempre tormentosa relação vivida entre o corno manso, o corno traído e o comborço.
Primeiro, vamos as definições para uma melhor compreensão do tema: o corno manso é aquele que descobre por acaso e por conta própria. Sabe que é corno e se mantém numa fingida ignorância e quando alguém tenta alertá-lo ele disfarça como se o assunto não fosse com ele. Essa espécie é mais evoluída, conhece bem todos seus direitos, deveres e características básicas e é feliz assim, só perdendo a compostura quando seu comborço não sabe conviver em sociedade.
Já o corno traído é aquele inconformado, sempre “vítima” da situação, aquele que parte imediatamente para a separação, sai de casa ou a expulsa, briga e chega até mesmo às vias de fato.
Sobre o comborço, vou pedir licença ao ilustre escritor Mario Prata que sintetizou muito bem a sua definição: “comborço significa o amante (ou o atual marido) da ex-mulher da gente. É o grau de parentesco entre o corno e o outro”. Ou seja, para todo corno corresponde um comborço. E a todo comborço corresponde um corno. Portanto, se a sua ex-mulher ou ex-namorada tiver um outro marido ou namorado, ele é o seu comborço. E você amigo, me desculpe, é o corno dele.
Partindo desses conceitos, entendo que o corno traído não deveria se preocupar tanto. Primeiro, porque a nossa memória é curta e passada a comoção da descoberta do par de chifres ninguém mais dará importância a esse fato. Segundo, porque o corno traído de hoje pode ser o comborço de amanhã. Portanto, o corno traído não deve se irritar com o seu comborço, porque, mais dia, menos dia, ele (comborço) será também um corno (que poderá ser manso ou traído) e terá, conseqüentemente, o seu comborço correspondente.
O corno traído sempre odeia o seu comborço. E vice-versa. É um erro crasso. Explica-se: deveria ser ensinado na escola respeitar e tratar sempre bem o nosso comborço, principalmente se você tiver filhos com a sua ex-mulher. Afinal, quem estará cuidando a maior parte do tempo dos seus filhos é o comborço e imagina ele fazendo a cabeça do seu primogênito para torcer para um time rival ao seu.
E não é que tem comborço que inacreditavelmente odeia o seu corno! Hello comborços, não se deve odiar os respectivos cornos, e, muito menos, cair na pasmaceira comum do comborço ter mais ciúme do corno que o corno do comborço. Na verdade, o comborço tem medo que a qualquer momento o corno passe a ser o comborço dele mesmo. Ou seja, os dois seriam, aí, parentescamente falando, co-comborços.
Acredito que paira uma grande injustiça sobre o corno manso. Geralmente são pessoas de temperamento dócil, solícitas e gentis e nunca são egoístas. A única coisa que estraga a felicidade da categoria é o tal do comborço. Esse indivíduo desconhece todas as regras que ditam a boa convivência social e acha que pode zombar o corno simplesmente por este pertencer a tão nobre espécie. Nobre pela singeleza da generosidade, o corno divide sua mulher e ainda se sujeita humildemente à chacota e ao escárnio. Uma mansidão bíblica! Porém, não convém apregoar os acessórios do corno estando ele presente, pois ao ser publicamente apontado o corno pode se tornar feroz - lembrando que ferocidade é diferente de agressividade.
Já o maior dos equívocos cometido pelo comborço é que ele, por não se ver na pele do corno manso, literalmente, acaba por cuspir no prato em que come. Esquece que o corno manso é seu parceiro e sócio e como tal deveria ser tratado com respeito e consideração. Fosse mais inteligente o comborço poderia concluir que o corno somente é corno porque tem uma mulher boa, no mínimo, interessante. E mais! O comborço inteligente elogia e enaltece o corno manso, a fim de que a mulher do corno dispense a seu marido a mesma e dedicada atenção que dispensa ao comborço, de forma que a proteção e atenção ao corno aumenta as chances de permanecer mais tempo como insuspeito comborço.
Reconheço que é um tanto difícil sustentar a defesa para que não chacotem o corno manso. A começar pelo simples fato de que todo corno manso é corno por prazer. O corno manso que diz se manter no triângulo societário amoroso apenas por amor à sua mulher mente descaradamente. Na verdade, o corno se julga incapaz de conquistar uma outra fonte de prazer tão generosa e abundante quanto à fonte atual (aqui, eu considero que a mulher que faz do corno um corno, assim o faz por ser uma fonte inesgotável de prazer) e, sentindo-se incapaz de explorar totalmente essa fonte, abre espaço para a exploração em parceria com o comborço. Ah, a sabedoria popular!! Quem não ouviu aquela frase “prefiro comer filet mignon acompanhado do que m... sozinho" - todo corno manso pensa assim.
Penso que o comborço é última análise um covarde e um ingrato! O comborço só se mantém no cargo por medo de assumir compromisso com a mulher que o encanta. Teme inversão de papel; assumir relacionamento e futuramente se imaginar a dividir sua abundância. A conclusão deveria ser clara e o comborço - que preza sua condição - não deveria menosprezar nem ridicularizar o corno, seu parceiro no usufruto de prazeres.
O comborço esperto não alardeia sua condição, fica na miúda, só obtendo prazer. Aliás, todos os envolvidos deveriam ficar cada um na sua. E quando um trio, em comum acordo, permite alarde da sociedade “anônima” geralmente acontece a sublimação do corno. Uma tragédia! Pois apesar de serem mutuamente necessários, tradicionalmente, o corno e seu comborço não devem se bicar. No máximo é permitido conviverem no mesmo circulo social. Convivência que é sempre por mérito do corno, que é sempre mais lúcido, por adotar medidas de segurança. Se deixasse por conta do comborço seria um caos. Veja bem, é sempre o corno quem liga pra casa avisando que vai chegar mais cedo. É o corno quem bate forte o portão, quem chega limpando os pés com estardalhaço, quem se atrapalha com a chave da porta, quem faz festa com o cãozinho antes de entrar em casa... Pode apostar, corno manso de primeira categoria nunca tem cachorro grande, daqueles que mordem, pois em preservação do comborço só se permite a posse de cãozinho que late. Chyu-aua pra baixo..
Ironia, justamente por todos esses cuidados em proteger e preservar o comborço, o pobre do corno manso é tratado com escárnio e desrespeito pelo seu protegido. Uma total falta de consideração, já que o correto seria o corno ser muito respeitado. Se não pela instituição que ele representa, pela mansidão e classe com que age.
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